Blog EntryGregório de Matos e Guerra: um poemaSep 22, '05 4:44 PM
for everyone

(Poucas vezes na vida pude ter contato com algo tão barroco: se eu pudesse transcrever em poesia o que Bach musicou, algo parecido sairia...)

NO SERMÃO QUE PREGOU NA MADRE DE DEOS D. JOÃO FRANCO DE OLIVEYRA
PONDERA O POETA SOBRE A FRAGILIDADE HUMANA.

Na oração, que desaterra.......................aterra
Quer Deus, que, a quem está o cuidado....dado
Pregue, que a vida é emprestado............estado
Mistérios mil, que desenterra.................enterra.

Quem não cuida de si, que é terra..........erra
Que o alto Rei por afamado...................amado,
E quem lhe assiste ao desvelado.............lado
Da morte ao ar não desaferra.................aferra.

Quem do mundo a mortal loucura...........cura,
A vontade de Deus sagrada....................agrada,
Firmar-lhe a vida em atadura..................dura.

Ó voz zelosa, que dobrada.....................brada,
Já sei, que a flor da formosura................usura
Será no fim desta jornada.......................nada.

* * *


yesojr wrote on Sep 22, '05
Que coisa mais linda!!! Alguém recolha meu queixo no chão por favor!

Beijão procê querido!
;o*
yesojr wrote on Sep 22, '05, edited on Sep 22, '05
Coincidência?!?! Na página do Píccolo tem também publicado um poema do Gregório de Matos (http://mrharket.multiply.com/journal/item/9). Também vale a pena ler!

;o*
fred2004 wrote on Sep 22, '05
Amigo,
Uma pena que não tenho aqui comigo a coletânea dos poemas de Gregório organizada pelo James Amado. De memória lembro-me de dois motes ótimos:

"Sal, cal e alho
cáiam no teu maldito caralho
Amém"

e (sobre a minha cidade do Salvador):

"De dois efes se compõem
esta cidade ao meu ver:
um futar, outro foder".

Impossível também não recordar o poema musicado por Caetano Veloso:

"Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!"

Obrigado por me lembrar Gregório, o primeiro poeta brasileiro.



paloman wrote on Sep 23, '05
maravilha!!!!
elpoeta wrote on Dec 29, '05
Uma escolha fora-se-série, Gregório.
Abraços.
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